Por Rafael Regis
Mulheres deixam o outside muito mais agradável. Chega uma hora em que cansa olhar pro lado e só ver marmanjo tatuado. Os surfistas mais velhos que conheço dizem que era bem raro encontra-las lá fora. Hoje, porém, é difícil ir surfar sem ouvir um “aê, aê” em voz fina, pedindo licença para continuar destruindo sua valinha. E elas estão mandando cada vez melhor. Há quem defenda que o surf é um dos esportes em que menos se evidencia discrepâncias físicas e técnicas entre os sexos. Talvez o que falte para a mulherada bater de frente com os caras seja simplesmente mais tempo de cultura de surf, mais meninas na água mais cedo e, é claro, patrocinadores dispostos a bancá-las na profissão.
Acabou ontem a Reef Hawaiian Pro, a primeira etapa da tríplice coroa havaiana e adivinha quem era o wild card local do evento? Não era “o” wild card, era “a” wild card, meu brother! Carissa Moore, a campeã mundial de 2010. Tudo bem que ela ficou em último logo na sua primeira bateria, dando adeus à competição precocemente, mas Carissa não deu vexame. Era mais um competidor ali. (Competidora. Maldita língua que masculiniza a generalização). Pegou três ondas, não conseguiu achar a pontuação, mas valeu. E deu a sensação que os caras não mudaram o jeito de competir pela presença de Carissa, o que é muito legal.
Acho legal também a mídia especializada não fazer muito “auê” pela participação de Carissa no evento masculino. Tudo bem, é uma mulher competindo contra 60 e tantos homens. É notícia. Foge do usual, eu sei. Mas as matérias que saíram por aí foram bem contidas. Essa coisa de “sensacionalizar” quando uma mulher se equipara aos homens em algum território dominado por eles me soa um tanto quanto preconceituosa e machista. Se é para haver igualdade entre os sexos, que ocorra de forma natural, sem fazer muito alarde e ficar enaltecendo as mulheres pioneiras como se elas fossem um “milagre da natureza”, algo que foi feito para ser inferior e que fantasticamente deu certo.

A mídia do surf dá importância para as competições femininas. Há notícias sempre que rola alguma coisa, as meninas estão sempre em pauta e alguns veículos até disponibilizam conteúdo específico para elas. Mas o surf tem um outro lado bem machista, que acaba sendo alimentado pelos próprios veículos de mídia. Em nosso meio há uma constante exploração da imagem da mulher. As fotos dos homens são escolhidas simplesmente pela plasticidade do surf, pela beleza das manobras. Já a das mulheres tem um outro critério de edição. Infelizmente, o corpo sarado, o biquíni cavado e o rostinho bonito ainda definem o que vai ser capa de revista e homepage de site. Isso acaba por influenciar o esporte como um todo, pois para um patrocínio vingar é necessário que se traga retorno e sabemos que esse retorno está na divulgação das marcas. Logo, meninas que não possuem tais atributos, mesmo que sejam muito boas, acabam não conseguindo dar continuidade a uma carreira dentro do esporte.
Deixo aqui o teaser do filme “Na praia delas”, que ao mesmo tempo em que tenta mostrar a emancipação da mulher, com duas surfistas “mó” descoladas e tal, acaba por exemplificar o que acabei de falar. Ressalto que minha pretensão não é julgar os produtores do filme e de todo o “conteúdo feminino” que se produz no universo do surf. Muitas vezes esta exploração “over” da imagem da mulher é feita sem que se perceba ou que se tenha a intenção de subvaloriza-las. Acontece que é um modelo que vem funcionando e recebendo incentivo –leia-se grana.
*A primeira foto do post é de Jacqueline Silva, que está de volta ao surf depois de sofrer acidente no começo do ano.